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| Os meus avós contavam-me da fome. Sobretudo ele, que nasceu numa família em que sobravam bocas para comer e faltava salário para comprar comida. Já ela costumava contar-me das senhas de racionamento com que os portugueses viveram nos anos do pós-guerra. A comida era escassa. Em Portugal, nos anos da ditadura, o que aterrava nos pratos era tantas vezes "uma sardinha para três", ou um caldo pobre, preparado com o que houvesse na horta. Comer um bife era privilégio de poucos, ou só acontecia em dias de festa. E não sei se esta crise que atravessamos nos vai levar aí outra vez, mas há sinais de que as coisas estão de alguma forma a mudar. Olhem esta notícia fresquinha: o aumento do preço da carne no Luxemburgo é o dobro da média da UE. Aqui, no Grão-Ducado, não há dúvidas de que a pobreza está a aumentar a uma velocidade galopante, ainda que haja ricos muito ricos - há até um luxemburguês que entrou na lista da Forbes das pessoas mais ricas do mundo. Mas, nas profissões praticadas habitualmente pelos portugueses, os sinais são tudo menos positivos. Nos últimos meses, o setor da construção tem visto empresas atrás de empresas fecharem as portas. Agora, chega a notícia que é o setor com mais dívidas à Segurança Social. Há cada vez mais gente desprotegida. Menos dinheiro significa normalmente pior alimentação, e isso significa que vamos tornar-nos provavelmente numa sociedade menos saudável. O pior é que o preço das consultas médicas está a aumentar no Grão-Ducado. Muita gente terá de ir tratar dos seus problemas de saúde nos sobrelotados hospitais portugueses - até porque o novo governo suspendeu o decreto que afastava os emigrantes do Serviço Nacional de Saúde. Não quero acreditar que voltaremos à fome e à sardinha dividida por três bocas. Só sei que a distribuição da riqueza anda como o preço da carne, e que assim não se aguenta a vida. Viver como pessoas comuns, como diz esta canção dos Pulp, parece estar a tornar-se um tremendo desafio. Assim vai o mundo. Boa tarde. |
terça-feira, 9 de abril de 2024
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